O que o dinheiro não compra

MUITA COISA BOA! EXEMPLOS DE VIDA DADOS PELOS PAIS VALEM MUITO MAIS QUE MIL BRINQUEDOS

Um amigo viu a maleta de carrinhos do meu filho e falou: “Nooossa! Nunca vi uma coleção dessas! Eu era uma criança pobre”.

Achei engraçado, mas não pude deixar de pensar que, na nossa infância, quase todo mundo era pobre. Eu mesma não tinha uma maleta de bonecas. Por mais que nossos pais tivessem uma situação estável, boa até, os brinquedos eram muito mais limitados e caros. Uma maleta de carrinhos “Matchbox” era para quem tinha muita grana.

Hoje a situação é bem diferente. Um carrinho de controle remoto pode ser comprado por R$ 5,00 em qualquer camelô.

A quantidade de brinquedos não determina o padrão social da criança ou de seus pais. Então, o que evidencia a diferença entre os mais privilegiados e os menos?

Arrisco um palpite: a bagagem cultural.

Bagagem cultural é herança.

E de nada adianta tentar ser enfiada dentro da cabeça de uma criança à força. Até uma determinada idade, as crianças agem por imitação. Isso significa que nossos filhos vão se tornar seres interessantes e interessados na medida em que tiverem pais idem. Mais ou menos assim: não adianta levar ao teatro se você acha teatro um saco. Não adianta pagar intercâmbio se você não acha que viajar é uma das melhores experiências da vida.

Lembro do caso de um estudante que, há uns dois anos, ficou famoso porque passou em primeiro lugar no vestibular para várias faculdades. Questionado sobre quanto tempo teve que estudar para ter essa performance, respondeu que, como a maioria dos jovens da sua idade, preferia tocar guitarra e namorar. Ele disse que não lembrava de ter estudado. Que estudar para ele era igual a viver. E lembrou das inúmeras vezes que foi com os pais em lojas de discos e livrarias, das viagens que faziam juntos, dos museus que visitaram, dos assuntos que conversavam em casa.

O que está em questão é a riqueza de conteúdo e não apenas financeira. É claro que o dinheiro rico é extremamente facilitador das coisas. O problema é quando o dinheiro é pobre. E é usado para comprar silêncios, pagar ausências, dar mesadas que vão ser gastas sem nenhum critério de importância, sem informação.

Na época em que ter uma maleta cheia de carrinhos era para quem tinha grana, algumas crianças iam estudar em escolas da Suíça. E muito freqüentemente voltavam solitárias, desconectadas da realidade do país em que viviam, mas falando francês.

Tenho sérias dúvidas se o dinheiro empregado nesse tipo de educação formou adultos com capacidade de levar adiante um projeto de vida original.

Ao contrário do garoto que passou nos vários vestibulares e acabou optando por administração de empresas porque seu sonho é criar uma nova escola, baseada na experiência que ele viveu. Pena isso ser para poucos privilegiados. Coisa de gente rica!

Por TETÊ PACHECO (publicitária)

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