Uma lasanha pré-cozida ou uma criança na pré-escola

Celso Antunes

Existem palavras que são indiferentes e, se eventualmente substituídas por outras, certamente seu impacto não iria se transformar. Dessa maneira, se, por exemplo, a lagosta fosse chamada de caranguejo e este de lagosta, em nada mudaria a essência de seu conteúdo e a delícia de seu sabor quando devidamente preparados. Outras palavras, ao contrário, incomodam e perturbam e, entre estas, talvez a que mais se mostra desajustada é o prefixo “pré” querendo referir-se ao “antes”.

Em primeiro lugar, raramente é nesse sentido que o prefixo é empregado, e todos que lutam contra o “pre+conceito” sabem que essa prática hedionda não corresponde efetivamente a um “conceito antecipado”. Ao contrário, quem quer que o pregue ou o aplique faz isso com intenção de separar, distanciar, agredir. Caso o “preconceito” fosse efetivamente uma idéia antecipada sobre um fato ou evento, haveria preconceitos neutros e até bons. Será que existem? Mas, seja qual for minha implicância com o prefixo “pré”, nenhuma é tão infinita quando aplicada à pré-escola, mais ou menos, pretendendo afirmar que essa fase da vida não tem lá muita razão de ser, senão a de esperar pela verdadeira escolaridade. Isso, convenhamos, é um absurdo!

Segundo o que hoje se conhece sobre a mente humana, bastante já se conhece, não podemos duvidar de que a educação infantil é tudo e o resto é quase nada e, portanto, não se justifica chamar de “pré” a fase, incontestavelmente, mais significativa da escolaridade humana. Além disso, o uso desse prefixo traduz uma idéia de que, na pré-escola, apenas se brinca, como que aguardando o instante de aprender. Isso até pode ser verdadeiro para algumas pré-escolas perdidas no tempo e distantes de Montessori, Piaget, Margarita Ravioli, Bruner e muitos outros, mas, certamente, é uma afirmação grotesca e estapafúrdia para escolas de ensino infantil em que a criança, brincando, aprende e solidifica as bases que pela vida afora vai carregar. Uma pré-lasanha até pode ser uma lasanha quase pronta, mas uma pré-escola de verdade educa, ensina, transforma e modifica bem mais o ser humano que, depois dela, vai passar por outros estágios, estes certamente bem menos importantes.
Uma justificativa, ainda que tímida, que pode ser usada para explicar o uso do prefixo “pré” é a ignorância de muitos adultos sobre o verdadeiro sentido da aprendizagem e a imensa dimensão da infância. Sabemos que muitos pais, a maioria talvez, pensam efetivamente que os primeiros anos de escolaridade são de pequena importância e, para isso, qualquer garagem enfeitada pode ser uma pré-escola. Mas, se esse pré-pensamento existe, que não seja ele usado por educadores, estes, sim, capazes de perceber a imensa e inefável dimensão dos primeiros anos de aprendizagem.

O pensamento criativo, a sociabilidade e a arte de fazer, manter e administrar amizades, a consciência essencial do ser e das coisas, as bases do pensamento lógico, a abertura infinita das inteligências, a plenitude das capacidades cognitivas, emocionais e motoras, o sentido da independência, o verdadeiro espírito de iniciativa, a sensibilidade para identificar, analisar e resolver problemas, a criação da hipótese, a segurança na expressão de sentimentos e opiniões, o controle do corpo e a imagem positiva de si mesmo que fundamenta a auto-estima são construídos nos primeiros anos de vida, auxiliados por professores preparados e em ambientes seguros. Se tudo isso pode ser chamado de “pré”, então, a própria vida humana seria uma pré-vida e outra razão não existe em se viver, senão se esperar pela morte.

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