A difícil arte de equilibrar afeto e limites

Jacir J. Venturi

"A estrutura básica do ser humano não é a razão e, sim, o afeto" - ensina apropriadamente Leonardo Boff, autor de 72 livros e renomado intelectual brasileiro.

Realmente, quanto mais tecnológico se torna o mundo moderno, maiores são as demandas por valores humanos e afetivos.

Recente pesquisa patrocinada pela Unicef mostra que, para 93% dos jovens brasileiros, a família e a escola são as instituições mais importantes da sociedade. As crianças e os adolescentes que têm modelo, afeto e limites em casa e no colégio mui raramente se envolvem com drogas, violência, pois nutrem-se de relacionamentos estáveis e sadios.

O doutor Dráuzio Varella cita os dois principais fatores que levam o indivíduo a se tornar violento: negligência afetiva e ausência de limites e de disciplina.

A nossa relação com o educando - seja filho ou aluno - não pode ser tíbia, leniente, permissiva, mas, sim, intensa e pró-ativa, mormente na imposição de disciplina, respeito às normas e à hierarquia. Até porque quem bem ama impõe privações e limites. E sem disciplina não há aprendizagem nem na escola nem para a vida.

Nós, pais, vivemos hoje alguns dilemas angustiantes:
1) oferecemos ao nosso filho um caminho por demais florido, plano e pavimentado, mas temos certeza de que mais tarde ele terá de percorrer trilhas e escarpas pedregosas;
2) protegemos nossas crianças e adolescentes das pequenas frustrações, mas bem sabemos que a vida, mais tarde, fatalmente vai se encarregar das grandes;
3) fazemos tudo para não privar nosso filho de conforto, bens materiais, shoppings, lazer, etc., mas destarte não estamos criando uma geração por demais hedonista e alheia aos problemas sociais?

Para esses paradoxos, não há um "manual de instruções". Mas, se houvesse, duas palavras comporiam o título deste manual: afeto e limites. São pratos distintos de uma balança, e têm de prevalecer o equilíbrio, a medida e o bom senso.

Mais que no passado, ao percorrer o seu caminho, o jovem de hoje encontra muitas bifurcações, tendo amiúde que decidir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado.
Em cada etapa da vida, é bom que o nosso educando cometa pequenos erros e seja responsabilizado por eles. Mas também que tenha clareza das nefastas conseqüências dos grandes ou irreversíveis erros para que possa evitá-los. Por exemplo: uma gravidez indesejada; exposição excessiva ao risco; envolvimento com drogas, álcool, tabaco, DSTs, brigas violentas, furtos, etc.

Num crescendo, a criança e o adolescente devem adquirir o direito de fazer escolhas, aprendendo a se auto-administrar. "Sem liberdade, o ser humano não se educa. Sem autoridade, não se educa para a liberdade" - pondera o educador suíço Jean Piaget (1896-1980). Autoridade e liberdade exercidas com equilíbrio são manifestações de afeto e ensejam segurança e proteção para a vida adulta. "Autoridade é fundamental, a superproteção e a permissividade impedem que os jovens amadureçam" - completa a professora da UFRJ Tânia Zagury.

Aos filhos, devemos dar-lhes "raízes e asas" (valores e liberdade). E nós, pais, educamos pouco pelos cromossomos e muito pelo como-somos (exemplos). Sai sempre ganhando quem sabe amar, dialogar, conviver com erros e também quem sabe ser firme e coerente em suas atitudes.

Diante de tantas exigências, nós, pais, perguntamos em tom de blague: dá para tomar uma Kaiser antes? E vem o estraga-prazer e responde: Não, beber cerveja é um mau exemplo para os filhos!

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